I
Meu filho,
Escrevo-te de um lugar que não existe.
O ar aqui vibra com ecos de nomes que não podem ser pronunciados. A noite não chega, mas tampouco amanhece. Vivo num intervalo — o instante antes da queda de uma estrela, o silêncio entre o toque e o trovão.
Há séculos, talvez minutos, estou preso neste limiar. Luto contra algo que não pode ser descrito, apenas sentido, como um arrepio no âmago do ser. Se algum dia encontrares estas cartas, saberás que teu pai foi o muro entre o mundo e o que o devora.
Mas não quero começar por aqui. Quero lembrar-me de quando ainda havia tempo.
II
Tua mãe tinha cabelos cor de âmbar queimado e olhos que pareciam conter os segredos de Wynlla, deusa da Magia. Ela ria de minhas tentativas de explicar o incognoscível, como se dissesse: “Marlim, a verdade não precisa ser compreendida, apenas vivida.”
Nos conhecemos em Lenórienn, antes da queda. Eu era jovem, arrogante, acreditava que a magia era um código que, se decifrado, revelaria a própria mente dos deuses. Ela me ensinou que o poder sem propósito é apenas ruído.
Quando você nasceu, senti pela primeira vez o medo. Não da morte, mas de viver o bastante para vê-la tocar aquilo que eu amava. Chamei-o de Lohan — “aquele que guarda o fogo”, em dracônico antigo. Não por ironia, mas por esperança. Eu acreditava que o nome seria um escudo.
III
Tua mãe me deixou pouco depois que você nasceu. Disse que seu tempo entre os elfos havia chegado ao fim. Suas palavras foram suaves, mas havia nelas o peso de quem não pedia permissão, apenas anunciava o inevitável. Eu fingi não entender — talvez fosse melhor assim. Nenhum de nós pertencia àquela terra, nem aos olhos longos e desconfiados dos que acreditam ver tudo.
A verdade, meu filho, é que alguns lugares são apenas espelhos para disfarces maiores. Lenórienn era um palco, e nós, atores conscientes de nossas máscaras. Ela partiu como quem retorna, e eu a deixei ir, sabendo — sem dizer — que os seus lares não são feitos de pedra ou madeira, mas de segredos e poder.
Parti contigo nos braços, ainda pequeno demais para compreender o peso que o mundo já colocava sobre nós. Cruzamos terras onde o ar cheirava a magia crua e os rios cantavam nomes esquecidos. Às vezes, durante o sono, tu sorris — e juro que vejo nas chamas do acampamento reflexos de algo antigo, talvez herdado dela, talvez meu.
IV
Nosso tempo juntos foi breve.
Logo, Ele voltou seus olhos para mim.
O vento mudou de direção, e as sombras começaram a sussurrar o meu nome em idiomas que eu mesmo havia esquecido. Não havia abrigo em lugar algum. Apenas o chamado da luta que nunca termina.
Foi então que compreendi: a vida que eu carregava em meus braços não podia seguir meu caminho. Eu era o risco. Tu eras a esperança.
E enquanto te deixava em segurança, sob o teto simples de uma casa que não conhecia o peso da magia, percebi que ela — tua mãe — talvez ainda me observasse.
De algum lugar distante, de um trono que nenhum humano veria sem enlouquecer.
E, no fundo, senti que ela sabia o que estava por vir.
V
Quando percebi que Ele — o Inominável, o Sussurro que rasga o firmamento — voltara seus olhos para mim, foi tarde demais.
Magos do Conselho de Vectora me advertiram sobre “movimentos anômalos no Éter”. Disseram que minhas pesquisas haviam atraído atenção. Não compreenderam que não fui eu quem buscou — foi Ele quem se lembrou de mim.
Desde então, vivo cercado por sombras que não têm dono. Elas deslizam pelas paredes e respiram pelas frestas. Quando durmo, sonho com mundos que já devorei em outras vidas, ou talvez sejam reflexos de futuros que evitei.
Foi então que decidi afastar você e sua mãe. Não por covardia, mas por amor.
Entreguei-o a uma fazendeira nas colinas de Bielefeld, uma mulher simples, com mãos firmes e coração honesto. Vigiei de longe. Vi você dar os primeiros passos, tropeçar, levantar-se, crescer. Cada feitiço que conjuro desde então é um pedido de perdão.
VI
As batalhas começaram nas bordas da realidade. O tempo começou a falhar.
Em uma delas, lutei por sete dias — ou sete respirações, nunca soube ao certo. As montanhas se curvaram, e o céu se transformou em um espelho de vidro quebrado. A cada golpe arcano, uma era desmoronava e outra nascia.
“Ele” tentava reescrever a história, e eu era o obstáculo.
Vi cidades desaparecerem entre um piscar de olhos e o próximo.
Vi meus próprios reflexos — versões de mim que escolheram caminhos diferentes — serem consumidos por bocas de luz que gritavam com vozes humanas.
Eu venci, dizem as runas.
Mas as runas mentem.
O preço foi a lembrança. Para manter o tecido do mundo coeso, precisei cortar partes de mim — memórias, sensações, rostos. Guardei-as em cristais de mana, escondidos em lugares onde nem mesmo os deuses olham.
E assim, pedaço por pedaço, fui desaparecendo.
VII
Às vezes ainda visito os campos próximos à fazenda. Você não me reconhece, claro. Sou apenas um andarilho de manto cinza.
Vi você sorrir para a mulher que chama de mãe, conversar com seu irmão, ajudar nas colheitas, brincar com cães. E cada vez que te vejo, o medo retorna.
Porque sei que Ele também observa.
Não com olhos, mas com intenções. Ele sonda o mundo como uma febre, procurando o menor sinal de fraqueza. Se soubesse de ti, viria. Não por ódio — o mal raramente odeia. Ele deseja, e o desejo do abismo é possuir.
Por isso, meu filho, nunca ouse buscar meu nome. Queimarás o mundo se o fizer.
VIII
As guerras arcanas que o povo canta — os trovões que rasgaram o céu de Tyrondir, o eclipse que durou três dias, as cidades que amanheceram em lugares diferentes — tudo isso são ecos das minhas lutas.
Mas as canções mentem. Elas falam de glória, de heróis, de vitória.
A verdade é que eu apenas atrasei o inevitável.
“Ele” não pode ser destruído, apenas mantido à distância, como uma maré escura contida por uma muralha de vontade. E essa muralha sou eu.
Cada conjuração que faço me envelhece.
Cada vez que o tempo se dobra, uma parte de mim se parte também.
Já perdi a conta de quantas vezes morri.
IX
Certa vez, em um sonho — ou talvez em um dos futuros alternativos que já queimei — você apareceu diante de mim, adulto, usando o manto dos conjuradores. Disse-me:
“Pai, o que você teme não é o Inominável, mas o silêncio que vem depois.”
Acordei chorando, e percebi que era verdade.
Não temo o inimigo. Temo o que restará quando ele finalmente se calar.
Pois sem ele, quem serei eu?
O herói que lutou sozinho? O monstro que sacrificou tudo?
A história não distinguirá.
X
Começo a sentir o tempo quebrar-se dentro de mim.
As horas não fluem, giram. Às vezes acordo em lugares que nunca visitei, com sangue nas mãos e o eco de feitiços que não lembro ter conjurado.
Se algum dia encontrares fragmentos de espelhos brilhando sob a lua, cuidado: podem conter lembranças minhas, vivas e famintas.
Em uma dessas fraturas, vi você com o mesmo poder que um dia carreguei. Vi fogo dracônico em seus olhos, e senti orgulho — e terror.
Há poder em seu nome, Lohan. Use-o com sabedoria. Ele foi o primeiro presente que te dei e o último que o mundo te permitirá usar impunemente.
XI
O último confronto se aproxima.
A realidade já cede ao toque d’Ele. As fronteiras entre sonho e vigília se dissolvem. A cada instante, vejo o mundo como um tabuleiro sendo redesenhado: montanhas trocam de lugar, rios correm para o céu, e as estrelas piscam com medo.
Eu estarei lá, como sempre estive, nas sombras que impedem o nada de respirar sobre Arton.
Ninguém lembrará meu nome quando o sol nascer, se nascer. Isso é justo. Heróis devem ser esquecidos para que os inocentes possam viver sem peso.
Mas você, meu filho, carregará o eco.
E talvez, quando tudo recomeçar, alguém sussurre “Lohan” ao vento, e o fogo desperte novamente.
XII
Escrevo estas últimas linhas em meio à distorção.
A tinta flutua no ar. As letras querem se desfazer.
Mas enquanto posso, registro uma verdade que o tempo não conseguirá apagar:
Não lutei para salvar o mundo.
Lutei para que você tivesse um.
Se o dia chegar em que sentires um arrepio sem razão, uma sombra se movendo ao seu redor — não temas.
Sou eu, ainda aqui, segurando o véu.
Enquanto eu existir, o mundo resistirá.
E mesmo depois, enquanto teu nome for lembrado, o fogo não se apagará.
Adeus, meu filho.
Com amor e arrependimento,
Marlim, o Guardião do Silêncio










