O Último Pedido de Um Aventureiro Aposentado

A estrada de terra se estendia até onde os olhos podiam alcançar, ondulando sob o calor da tarde.

— Se esse sol continuar, vou acabar derretendo — murmurou Cass, abanando-se com as mãos.

— Derreter? — Zhariss arqueou a sobrancelha, o tom seco. — Mais provável que você tropece e vire comida de poeira.

Cass fez uma careta, mas não perdeu o bom humor.

— Então pelo menos eu vou temperar a estrada.

Sely riu, distraída, olhando as colinas ao redor.

— Podia chover um pouco, só para variar o cenário.

— Não reclame — disse Lauri, firme, mas com o traço de um sorriso. — O sol é melhor que neve.

— Melhor que fome, com certeza — acrescentou Cass. — Ainda estou pensando na torta da estalagem.

Zhariss bufou, mas os cantos de sua boca quase se curvaram. Lauri, à frente, apenas ergueu o queixo, mantendo o ritmo. Era ela quem sempre ditava o passo, firme, constante, como um escudo contra a estrada.

Assim, falando de nada e de tudo, atravessaram o portão da vila.


O cheiro de pão assado e cerveja acolheu o grupo quando empurraram a porta da taverna. O salão estava cheio de trabalhadores da lavoura e caçadores locais. Alguns silenciaram ao vê-las entrar — havia algo nelas que chamava atenção, algo difícil de definir.

Cass correu os olhos pelo balcão, já sorrindo. — Aposto que aqui também tem torta.

— Primeiro um quarto, depois comida — disse Lauri, dirigindo-se ao taverneiro.

O homem, de bigodes grossos e barriga farta, inclinou-se sobre o balcão. O olhar dele se demorou um instante em cada uma delas, como se confirmasse algo.

— Vocês chegaram na hora certa — disse, em voz baixa. — O Velho pediu para que eu o avisasse se aventureiros aparecessem na cidade.

— Velho? — Sely franziu a testa. — É um nome ou uma descrição?

O taverneiro riu, sem humor.

— Ambos. Um herói de outros tempos. Mais cicatriz que pele, mas a chama ainda arde nele. Anda dizendo que quer falar com viajantes. Talvez… com vocês.

Zhariss se inclinou sobre o balcão, o tom direto.

— E por que a gente?

— Porque ele sabe reconhecer quem não é comum. — O homem enxugou o balcão com um pano gasto. — E vocês não são.

O silêncio pesou por um instante. Cass quebrou a tensão:

— Então, depois da torta, vamos conhecer esse Velho.


Foram conduzidas até uma cabana solitária na colina. O homem sentado à porta não era apenas velho — era um campo de cicatrizes.

O rosto cortado por linhas fundas. O corpo marcado por golpes que nunca cicatrizaram direito. Uma perna de madeira apoiada no chão, rangendo com o vento. O braço esquerdo imóvel, sempre coberto por uma luva grossa e a manga longa do casaco.

Mas seus olhos ardiam. Eram brasas, ainda vivas.

A espada, enferrujada, servia-lhe de bengala.

— Vieram mesmo — disse, quando elas se aproximaram. — Pensei que viajantes como vocês não perderiam tempo com um velho quebrado.

— Velho, talvez — comentou Sely, olhando as cicatrizes como quem folheia um livro. — Mas quebrado, não.

Ele sorriu.

— Chamem-me apenas de Velho. É como me conhecem agora.

— E o que quer de nós? — Zhariss perguntou, direta.

O Velho se ajeitou, batendo o cabo da espada contra o chão.

— Quero que me acompanhem numa última missão. Uma caverna, não longe daqui. Foi lá que tudo começou. Não há monstros, nem tesouros, nem glória. Só paredes frias e memórias. Quero terminar onde comecei.

Cass arregalou os olhos.

— Uma caverna? De verdade?

— De verdade — disse ele. — Preciso de testemunhas.

Houve silêncio. Zhariss estudava cada detalhe, mas foi Lauri quem ergueu o queixo e respondeu:

— Iremos.


Saíram ao amanhecer. O Velho avançava com dificuldade, a perna de madeira arrastando-se na terra, o corpo apoiado na espada.

— O orc estava na entrada — disse, rindo entre pausas para respirar. — Clava maior que eu. Tremia tanto que mal sentia a espada na mão.

Cass caminhava ao seu lado, empolgada.

— E você venceu mesmo assim?

— Venci porque meus amigos estavam lá. Eu nunca sobrevivi sozinho.

Ele tropeçou em uma pedra e quase caiu. Lauri o segurou pelo ombro, firme como muralha.

— Obrigado — murmurou ele.

Mais tarde, quando apoiou o braço imóvel em Zhariss para não tombar, ela franziu o cenho. A rigidez não era de carne endurecida. Era madeira. Ela não disse nada, mas seus olhos guardaram a descoberta.

Sely caminhava atrás, atenta a cada detalhe, oscilando entre fascínio e desconfiança.


No entardecer, chegaram. A entrada era uma boca de pedra, coberta de musgo.

— Aqui comecei — disse o Velho, tocando o arco da entrada com reverência.

Seguiram-no para dentro. As paredes ecoavam, devolvendo os passos. O Velho falava sem parar, e Cass perguntava sobre tudo — o cheiro, o som, as criaturas.

— Foi aqui que sangrei pela primeira vez — disse ele, rindo. — E nunca mais parei de sangrar.

Sely estreitou os olhos. — Parece um lugar feito para se perder.

— É — respondeu o Velho, sem se virar. — Mas também é um lugar feito para ser lembrado.

— Você se lembra o gosto? — Perguntou Sely com certa indiferença. — O gosto do medo…

— Sim… — Respondeu o Velho com palavras pesadas. — Como o gosto do sangue na boca durante uma batalha… É um sabor que nunca vai embora da sua língua.


O salão final se abriu em abóbadas irregulares. E, no centro, o esqueleto de um ogro jazia, coberto de pó, ossos ainda imensos mesmo após décadas.

— Meu primeiro inimigo — disse o Velho, ajoelhando-se. — Foi aqui que deixei de ser garoto.

Ele apoiou-se na espada, respirando com esforço.

— E aqui quero deixar de ser homem.

O silêncio caiu pesado. Ele estendeu a espada a Lauri.

— Quero pedir três coisas. A primeira: deixem-me morrer aqui. A segunda: levem minha arma, não como troféu, mas como lembrança da vida que não viveram… A terceira… — sua voz falhou, mas seus olhos brilharam — chorem por mim, quando o vento lhes trouxer meu nome.

Cass caiu de joelhos ao lado dele, os olhos marejados. — Eu não sei se consigo simplesmente deixá-lo morrer…

— Obrigado, criança — disse ele. — mas meu tempo chegou ao fim…

Então, fechou os olhos. Zhyriss consolou Cass, como se a experiência não lhe fosse nova.

E, da escuridão do salão, surgiram três silhuetas fantasmagóricas.

Um anão de bigodes fartos, mas sem barba, segurando um mosquete como se nunca o tivesse largado.
Um centauro de olhar penetrante, firme como montanha.
E uma mulher ruiva em armadura pesada, o peito marcado pelo símbolo antigo: machado e marreta cruzados.

Eles estenderam as mãos. O corpo do Velho permaneceu imóvel, mas seu espírito se ergueu, jovem outra vez, rindo com lágrimas.

— Meus amigos… — disse, e caminhou até eles.

As quatro protagonistas não se moveram. Assistiam em silêncio, como diante de um ritual sagrado.

O fantasma do Velho virou-se uma última vez. — Obrigado.

Então desapareceu com seus companheiros, no mesmo instante em que seu corpo perdeu o último sopro.


O silêncio era absoluto. Até que Zhariss falou, sua voz firme e respeitosa:

— Adeus… Sir Orion.

As outras se voltaram para ela, surpresas.

Zhariss tocou a espada com a ponta dos dedos.

— A ausência do braço, os companheiros, a arma… não podia ser outro.

Lauri recebeu a espada das mãos dele. Era pesada. Mais do que o ferro enferrujado, mais do que o cabo gasto. Pesava como se nela repousassem não apenas batalhas, mas séculos. O peso de guerras esquecidas, de inimigos derrotados, de vidas ceifadas e vidas salvas.

Era o peso da história.

E agora estava em suas mãos.

As quatro saíram da caverna em silêncio. Não precisavam de palavras. O vento carregava o nome que seria lembrado — e talvez, um dia, chorado.

Sir Orion.

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