A Primeira Cadeira da Ordem

Os cavalos rasgavam a estrada em galopes forçados, relinchando como tambores de guerra. A espuma branca escorria-lhes do focinho, enquanto os cavaleiros, seis em número, apertavam as rédeas com punhos calejados. Haviam conhecido dias melhores, mas não hoje. Hoje estavam atrasados — dias atrasados. E vidas, se ainda restassem neste mundo, dependiam da próxima batida de seus cascos.

O destino cruel que os aguardava não pouparia nem o mais endurecido dos corações. Profanar o túmulo de uma criança — eis a necessidade que lhes fora imposta, e que lhes corroía o espírito. Só chegar a essa conclusão já havia sido um tormento; cumprir a tarefa seria uma chaga ainda mais funda.

O cemitério aguardava com sua atmosfera pesada. O vento ali sussurrava como vozes antigas, e a chuva começava a cair, transformando a terra em lama. À frente do grupo, como sempre, cavalgava Matayos. Atrás dele, em guarda, vinham Mastery e Lucy, um de cada lado. Nas sombras do fim da coluna, Jin-mori e Malakias seguiam calados, a mão sempre próxima das armas. E no centro, montado em um lagarto monstruoso que jamais deveria existir fora dos pesadelos, vinha Thongar, o bugbear de coração imenso e cérebro curto.

A missão lhes exigia mais que coragem: exigia sacrificar a própria honra. Thongar e Malakias, com pás nas mãos, abriram o túmulo do menino de onze anos. A cada golpe, a cabeça de Malakias latejava em explosões de dor, lembrando-lhe a orgia de cerveja da noite passada. “Como diabos o Matayos está de pé? Bebeu mais do que eu”, pensava, suando tanto quanto a chuva que lhes ensopava.

Quando a pá tocou madeira, interromperam. Chamaram o trio. Lucy foi a primeira a descer à cova reaberta, seguida de Matayos. Thongar e Malakias retiraram-se da lama, e Jin-mori permaneceu de vigia. Lucy limpava a tábua úmida com as mãos, e Matayos, descendo, ajudava-a.

Então, o estalo. Um ruído forte como um trovão subterrâneo. O chão cedeu, e a cova tornou-se abismo. Matayos e Lucy despencaram com a madeira, pedras e lama, caindo dezenas de metros até uma gruta oculta sob o cemitério.

Na superfície, o grupo correu à beira do buraco. Mas não havia corda longa o bastante. E não havia tempo a perder. Lá embaixo, Lucy iluminava o que restara da tumba: o caixão estava vazio. O corpo não estava ali.

Matayos ergueu a voz pelas trevas: havia túneis na gruta, passagens subterrâneas que deveriam levá-los à cidade. “Sigam a próxima pista: a Casa do Capitão!”, ordenou. Ele e Lucy explorariam os túneis, reencontrando o grupo depois.

Os Túneis

Dois dias vagaram Matayos e Lucy pela escuridão, guiados apenas por tochas escassas e a coragem que ainda resistia. Não tinham alimento, apenas o cantil de Matayos. Mas este, em vez de água, guardava licor de fogo — bebida forte que queimava a garganta e que, diziam, fazia soprar labaredas como dragões. Menos conhecido era o outro efeito: um calor carnal que se infiltrava na pele e no sangue.

Bebiam para não sentir a sede, mas cada gole os deixava mais tontos. Acamparam nas pedras úmidas, trocando histórias e bravatas. Matayos contava sua origem: filho de mercenário estrangeiro e de donzela élfica, condenado a viver entre mundos. Lucy, filha do comandante da guarda, carregava o peso do título de investigadora, e mais que o peso, a honra.

As palavras tornaram-se desafios. Matayos, ébrio, lançou uma flecha contra Lucy para provar sua mira. O projétil apenas riscou seu ombro. Ela sorriu: “Errou de propósito?” E ele, sem titubear, respondeu: “Jamais feriria um rosto tão belo.”

O licor, somado às palavras, incendiou o que a prudência não conseguiu conter. Sob a terra fria, entre raízes e pedras, em meio ao fedor de ossos esquecidos, encontraram calor nos braços um do outro. E ali, onde a morte se empilhava, descobriram um instante de vida.

A Casa do Capitão

Enquanto isso, na cidade, Thongar decidira esperar o retorno dos dois, pois seu tamanho lhe dificultaria a investigação. Coube a Mastery, Jin-mori e Malakias ir à Casa do Capitão Enzo.

A residência parecia vazia. Apenas um cão preso junto à entrada latia em protesto, cada latido martelando a cabeça do já debilitado Malakias. Sem opções, Jin-mori arrombou a porta.

No mesmo instante, um apito agudo ecoou, cortando o ar como lâmina invisível. Era um feitiço. Mastery e Jin-mori ignoraram-no, mas Malakias caiu quase de joelhos, decidido a não entrar. Enquanto o primeiro revistava o andar térreo, Jin-mori descobriu uma pequena pedra junto à entrada, fonte do som encantado.

Guardas chegaram em minutos. Malakias protestou: não pusera um pé sequer dentro da casa. Mas a lei não lhe deu ouvidos. Os três foram levados à prisão, sem honra, sem chance de defesa.

O Reencontro

Dois dias depois, Matayos e Lucy emergiram dos túneis, exaustos e ainda embriagados da longa travessia. Encontraram Thongar, que lhes contou da prisão dos companheiros. Lucy, filha da lei, não ousou contestar: invadir uma casa era crime, por mais nobre que fosse o motivo.

Mas Matayos, com seu carisma peculiar, foi ao comandante da guarda. Com palavras que soavam como música, convenceu-o a libertar os companheiros e permitir investigação oficial. Se era talento místico ou apenas língua afiada, ninguém sabia. Mas a verdade é que o comandante acreditava nele.

Libertos, porém desmoralizados, o grupo se reuniu na estalagem, exceto Lucy. E ali, diante da fumaça de velas e do ranger da madeira, surgiu Lohan, pai de Matayos: um mercenário rude, de barba e cabelos tão ruivos quanto o fogo.

Sua ira encheu a sala como trovão. Repreendeu-os pelos crimes, pela incompetência, pelos dias desperdiçados. Lembrou-lhes que até mesmo o cão fora esquecido na casa vazia. Cada acusação feria mais que lâmina. E a cada situação descrita, apontava para Wallace, um orc de aparência bruta ali presente. Perguntava-lhe o que faria — e as respostas do orc, simples e sensatas, apenas aumentavam a vergonha dos aspirantes a heróis.

Desmoralizados, sentaram-se no chão da taverna, pois nem uma mesa lhes foi concedida. Matayos, Mastery, Malakias, Jin-mori, Thongar e o orc Wallace. No centro, uma cadeira velha, bamba, marcada no encosto com o nome “Roberta”. Nela apoiavam as canecas, afogando em álcool as decepções do dia.

E assim terminou aquele capítulo: seis homens sentados ao redor de nada, além de uma cadeira velha, sem honra, tentando acreditar que ainda havia grandeza nos caminhos que escolheram.


Em um dia qualquer, sentavam-se no chão de uma taverna lotada, um Rei, um Deus, um Herói, um Demônio, um Dragão e um Maldito. Mas nem eles sabiam disso ainda. A Cadeira Roberta foi então a única testemunha desse evento.

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